Crônica do Literata, Reitor da UNESPAR, Antônio Carlos Aleixo – "É só me mostrar qual é a direção"

Coluna Antônio Carlos Aleixo


O que sobrou destas duas últimas semanas, com a mobilização dos caminhões? O acontecimento trouxe ao primeiro plano um grupo que, vez ou outra, ensaiava, nos últimos tempos, movimentos menos fortes. Os caminhoneiros. Sejam os proprietários de um caminhão ou dois, sejam os donos das grandes transportadoras.
No imaginário popular, caminhoneiros.
O primeiro saldo a ser observado, além do fato de a gasolina passar de 2,89 e 4,35, em média, é o aprofundamento da sensação de um desgoverno. Fraco, de origem, porque sem legitimidade popular. Sem base no congresso, sem lideranças que o defendam. Se a oposição de esquerda não se posicionou claramente, nestes dias, exceto por notas e por incansáveis e contraditórias opiniões nas redes sociais, a direita (direita e extrema direita) perdeu muito.
A quantidade de grupos e a dificuldade de unificar-se sob uma liderança, por parte dos caminhoneiros, permitiu que uns tantos se apropriassem do movimento para pedir intervenção militar, com faixas e cartazes espalhados nas rodovias. Um fiasco, porque nem os militares que recentemente falaram em uso de força, para chantagear o STF, vieram à mídia, desta vez, para se posicionar.
Quando fizeram foi para dizer “não, muito agradecido, fica pra próxima”.
Mas é um equívoco tomar todos os caminhoneiros pelas faixas. Como todas as categorias, possui suas contradições internas, suas diferenças e, dadas as condições objetivas de formação pessoal e política – a vida do cominhoneiro não é a de formação política, assembleias, jornais, dirigentes sindicais – é evidente que esse profissionais – com raríssimas exceções – tornam-se presas fáceis de espertalhões de discurso fácil: exaltação da força física, da virilidade, da coragem e do romantismo heroico de salvação nacional. Uma mistura de Pedro e Bino com Roberto Carlos e Sula Miranda.
Os revolucionários de 2013 e os de 2015 e 2016 (na derrubada de Dilma) ficaram divididos desta vez. Alguns perceberam que ao baixar o valor do diesel, o rombo sairia (e sairá) do povo, porque a Petrobrás de Temer e Pedro Parente precisa aumentar o valor de seus produtos conforme a flutuação do humor internacional, para que as ações não caiam, para que os acionistas não percam, para que a empresa fique mais atrativa com uma possível privatização. Nem caminhoneiros, nem os revolucionários de 2016 defendem a Petrobrás.
Os conservadores perderam politicamente, ainda, porque uma parcela média da população, ao fazer os cálculos e ao entender que a distribuição dos produtos é tão importante quanto a produção, percebeu como funciona o verdadeiro mecanismo. Não o da política e da corrupção a ela inerente – porque essa aulinha já foi bem dada nos últimos doze anos, mas a do sistema capitalista: lucro a qualquer custo. Se não tem produto, eu aumento o valor e salve-se quem puder.
O maior sintoma foi a correria da maior empresa de comunicação do país, que atende pelo nome de Rede Globo, para explicar que a paralisação estava fazendo mal. Voltem ao trabalho ou o sistema pode entrar em colapso. Já pensou se as pessoas percebem como funciona de verdade?
Não deu tempo para discutir alternativas de transporte pesado, num país tão grande como o Brasil.
Não deu tempo para debater a quem interessa ter tantos caminhões rodando e tantas estradas para serem construídas – e reformadas, diriam os empreiteiros – e tantos pedágios para serem pagos. Pouca gente pode provar o gostinho de rodar nas rodovias a 110, sem correria para ultrapassar, sem os riscos de morte, sem maldizer o caminhoneiro.
Também não houve tempo para pensar no que fazer com uma possível redução no número de caminhões nas estradas e na realocação de, aproximadamente, 1.500.000 trabalhadores. Enfim, quase deu tempo para pensar na possibilidade de outro padrão de convivência e de sociedade, mas todos tem que voltar ao trabalho. Toda vez que a gente começa a imaginar, vem alguém e manda se ocupar de outras coisas. Enfim.
Antônio Carlos Aleixo

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