Cultura

A Coluna Pensando Bem, Melhor apresenta o esquecido “Abílio de Guerra Junqueiro (Portugal 15 Set 1850 // 7 Jul 1923) Escritor/Poeta/Jornalista/Político”

Por Gabriel Abbés L. Esperidião

Corre, ainda latente, nas veias espirituais do falecido Ariano Suassuna, a influência dos versos do Jornalista Junqueiro! Conversando com meu pai, Gagá, ele me alertou que a construção literária l,  se fez, além da boa educação de família, de Obras do escritor Antero de Quental!

Junqueiro ensinou através das trovas/versos de amor e vida, mas em raros e fortes pensamentos Hamletianos, tais este abaixo;

“Se nos amesquinharem a fama e cercearem a glória, desviando de nós as multidões, que não pensam e vão para onde as levam, melhor. Os que nos querem, os que nos amam, os que nos entendem, ficarão conosco. Os outros, deixando-nos, prestam-nos favor.”

Rico navegador das Letras, construtor doador da verdadeira forma das paixões humanas, Abílio brilhou em seus anos de vida com poemas como ao que descrevo aqui;

Carta (a um Amigo que me Pediu Versos)

Como hei-de ser um Petrarca,
Cantar como um rouxinol,
Se o meu termómetro marca
Quarenta e dois graus ao sol!Da lira bárbara e tosca
Nem saem trovas d’Alfama.
Enxota o Pégaso a mosca,
E eu durmo a sesta na cama.

A hipocondria maciça
Conduzo-a, não há remédio,
Na jumenta da preguiça
Pelas charnecas do tédio.

Eu trago a inspiração oca,
Ando abatido, ando mono;
Meus versos abrem a boca,
Como os porteiros com sono.

Não tenho a rima imprevista,
Os guizos d’oiro ou de opala,
Que à asa da estrofe o artista
Sublime prende ao largá-la.

P’ra lapidar à vontade
Um belo verso radiante,
Falta-me a tenacidade,
Que é como o pó do diamante.

A musa foi-se-me embora;
Para onde foi nem me lembro;
Só a torno a ver agora
Lá para os fins de Setembro.

Anda talvez nas florestas
Fazendo orgias pagãs,
Entre os aromas das giestas
E os braços dos Egipãs.

Deixá-la andar lá dois meses
Colhendo imagens e flores,
Para espanto dos burgueses
E ruína dos editores.

Enfim, o calor achata-nos.
Vamos aos bosques pacíficos
Onde os guarda-sóis — os plátanos —
Têm forros novos, magníficos!

Ou então, vejamos a visão de amor de Junqueiro;

O Amor

I

Eu nunca naveguei, pieguíssimo argonauta
Dans les fleuves du tendre, onde há naufrágios bons,
Conduzindo Florian na tolda a tocar frauta,
E cupidinhos d’oiro a tasquinhar bombons.
Nunca ninguém me viu de capa à trovador,
Às horas em que está já Menelau deitado,
A tanger o arrabil sob os balcões em flor
Dos castelos feudais de papelão doirado.
Não canto de Anfitrite as vaporosas fraldas,
(Eu não quero com isto, ó Vénus, descompor-te)
Nem costumo almoçar c’roado de grinaldas,
Nem nunca pastoreei enfim, vestido à corte,
De bordão de cristal e punhos de Alençon,
Borreguinhos de neve a tosar esmeraldas
Num lameiro qualquer de qualquer Trianon.
Eu não bebo ambrósia em taças cristalinas,
Bebo um vinho qualquer do Douro ou de Bucelas,
Nem vou interrogar as folhas das boninas,
Para saber o amor, o tal amor das Elas.
Não visto da poesia a túnica inconsútil,
Pela simples razão, sob o pretexto fútil
De ter visto passar na rua uns pés bonitos;
Nem do meu coração eu fiz um paliteiro,
Onde venha o amor cravar os seus palitos.
Sou selvagem talvez, e sou talvez grosseiro,
Mas as cousas que sinto eu digo-as francamente:
Não quebro da friura a água de Castália,
Nem a bebo panada assim como um doente.
Detesto o lamurear dum realejo de Itália,
Detesto um maçador, detesto uma maçada,
Um discurso comprido, uma bota apertada,
E uma unha raspando a cal duma parede;
Detesto o pedantismo, a hidrofobia, e crede
Que detesto também com infinita zanga
As paisagens, horror! bordadas a missanga,
Que a província fabrica, e que Lisboa admira;
Detesto duma letra o prazo, quando expira,

Detesto intimamente a carta de conselho,
Detesto o calembour, como um toiro o vermelho,
E detesto da morte os pálidos umbrais;
Detesto os folhetins que escrevo nos jornais,
Detesto Tito Lívio e detesto os venenos,
Mas detesto tudo isso ainda muito menos
Do que a sensiblerie, a doce musa antiga,
Que passou de ser musa a ser uma lombriga.
Eu não subo, é verdade, a calçada do Combro,
De bengala na mão e de madeiro ao ombro,
Como um Cristo-Romeu, como um Jesus-Manfredo;
Não me chamo Lindor, nem Artur, nem Alfredo,
E nem recito ao piano, o que parece incrível;
Mas enfim eu não sou um cofre incombustível,
Eu sou um homem também, eu também sinto e vivo,
Tenho o meu coração no lugar respectivo,
Admiro um corpo airoso e fino e delicado,
Sou como toda a gente um bacharel formado,
E posso dar por isso a minha opinião
Sobre o amor — essa eterna, essa imortal canção.

II

O amor feito petisco e brisa e filomela,
Ao próprio coração pondo uma manivela
De realejo, e passando uma existência falsa
A traduzir em polca, em hino, em guincho, em valsa
As guerras do alecrim e mais da manjerona,
Moídas como café nessa imortal sanfona;
O amor sem a paixão fremente, esplendorosa,
O amor literatice, o amor licor de rosa,
Lacoonte de biscuit, torcendo-se aos corcovos
Nas doces espirais duma lampreia d’ovos;
O amor açucarado, o amor amor-perfeito,
De tristeza na fronte e de vulcão ao peito,
A rouxinolizar um berimbau d’alquime;
O amor de barba intensa, o velho amor sublime
Dos precitos, aos quais a desventura alquebra,
Mussets de botequim que vão beber genebra
Sobre o cairel do abismo às horas do sol pôr;
O amor que se derrete, o florianesco amor,
De conceitos gentis, subtis, que eu não destrinço,
— Um amor sustentado a beijos e a painço,
Que suspira e soluça e chora e gargareja
À noite na varanda e de manhã na igreja;
O amor que passa a vida a celebrar as bodas
Co’a Ela que contém em si as elas todas;
O amor com a tristeza aérea dum arcanjo,
Mas arrastando sempre, insípido marmanjo,
Das asas de flanela a franja inocentíssima;
O amor bijutaria, o amor pomada alvíssima,
Enfim, o terno amor, o puro amor ideal,
O amor sem sentimento — o amor sentimental,—
Oh, esse amor detesto-o, e entrego-o com delícia
Às bengalas dos pais e às unhas da polícia.

III

Mas quando o amor se torna em paixão verdadeira,
Puro como uma hóstia erguida sobre o altar,
Quando um amor domina uma existência inteira
Como a Lua domina os vagalhões do mar;
Quando é o amor radiante, esplêndido, que arvora
Em nossos corações um pavilhão d’aurora
Desdobrado no azul, quando é o amor profundo,
Um amor que nos veste uma rija armadura
Para se atravessar a batalha do mundo,
Como um leão atravessa uma floresta escura;
Então adoro o amor, de joelhos, como adora
No topo da montanha um índio o Sol doirado,
Porque um amor candente é uma hóstia d’aurora,
E o peito que o encerra é um sacrário estrelado!